Notas sobre práticas musicais
03/11/19
Um mestre
Tive a sorte de assistir à apresentação de Nivaldo Ornelas (sax tenor/flauta) com Roberto Rutigliano (bateria), Didac Tiago (percussão), Sergio Barrozo (contrabaixo), Antonio Guerra (piano), que aconteceu sábado, 02/11/19, no AudioRebel, em Botafogo.
A improvisação que Nivaldo pratica é muito elaborada, e tão exploratória quanto sem tempo para excesso. O instrumento aparece com todos os recursos de registro, sonoridade, dinâmica — e vai tecendo um discurso muito variado, e coerente com o repertório, que trazia temas de jazz (Ruby my dear, Naima) e originais — reinventados ao longo da carreira (Colheita do trigo, Chuvas de agosto, Sonata pra batera, Rock novo). Giant steps veio em bossa-nova (a cada chorus, o solo de tenor tinha valor de uma nova composição), e depois em rumba, com brilho de todo o conjunto.
Nivaldo Ornelas mais uma vez mostrou novos resultados de sua arte continuada, sustentada com autonomia e sinceridade. Aquela noite de sábado, na casa simples, e já rica de uma história de produções da juventude na cidade, fica memorável: no pequeno palco, a música do conjunto vibrava e lançava uma espécie de benção sobre o público. Muito obrigado, Nivaldo, Antonio, Sergio, Didac e Roberto, e parabéns de novo!
05/05/2019
Começou no Dia do Trabalho e terminou ontem mais um encontro nacional da Associação Brasileira de Etnomusicologia, organizado em conjunto com o XII Encontro de Educação Musical da UNICAMP. Vibrante de gente apresentando pesquisas, refletindo sobre o trabalho nas várias frentes da música, lançando propostas e questões para colegas. As palavras escolhidas, revisadas, o fogo espontâneo das ideias, a costura dos afetos. Os saberes, as gerações: gente que naqueles dias vem, de muitas partes do país e de fora, conversar atentamente sobre o que faz — as condições, as técnicas, as outras tantas pessoas envolvidas.
Todo respeito às universidades públicas, associações acadêmicas, grupos musicais — seguimos no diálogo e articulação prática com setores diversos da sociedade, nas ações de produzir e projetar melhoras de um mundo para todos.
03/11/2018
Sábado de manhã, digito o nome do programa Beat Club, da tv alemã, e assisto a essa edição: https://youtu.be/P97s0uBvaxw. Especial de 1967, gravado num clube em Londres, com as bandas, dois apresentadores, equipe técnica e uma pequena platéia.
Um tipo de programa que as televisões públicas podem fazer — nas condições que permitam certos usos do tempo e de outros recursos — em matéria de cultura, divulgação de práticas artísticas etc.
O cenário musical londrino daqueles anos 1960 é movimentado por uma quantidade notável de músicos jovens, organizando-se principalmente como conjuntos, associados ao rock. Construíam carreiras num “mundo da arte” (Becker, 1983) em que parecia haver espaço — nas estruturas de produção — para se criar modos próprios de ter a música como profissão, e para se modelar o rock juntamente com estilos de vida. Variedade e experimentação. Provável identificação, por setores da indústria cultural, de uma juventude urbana com padrões ou tendências de gosto e consumo chegados a uma relativa internacionalidade, anglo-americana e parcialmente europeia (mas com potencial de ampliação). (cf. Peter Martin, 1995).
Inclui: Hendrix no contexto de seu aparecimento como autor-artista, junto ao pequeno e grande Mitch Mitchell, baterista; John Entwistle colocando o baixo em novo papel, a agilidade geral do baterista Keith Moon; um conjunto (The Smoke) marcado pelos Beatles, e modelando uma marca própria etc.